Lideradas por mulheres, cozinhas agroextrativistas são referência na transformação da biodiversidade

Em tempos de altas recorrentes do desmatamento, experiências lideradas por mulheres da Amazônia servem de referência para uma economia baseada na floresta em pé. Por meio de duas cozinhas coletivas, mulheres agroextrativistas de pelo menos sete comunidades dos estados do Pará e Amapá transformam produtos das florestas em alimentos nutritivos, livres de agrotóxicos e baseados na experimentação de novos ingredientes ou em conhecimentos herdados de suas mães, tias e avós.

De forma inovadora e exemplar, a Cozinha Agroextrativista Iaçá foi criada em 2018, em Portel, conhecido por fazer parte da lista dos municípios com maior área de floresta desmatada na Amazônia nos anos recentes.

Localizada na Ilha do Marajó, no Pará, mais especificamente na comunidade de Santo Ezequiel Moreno, às margens do Rio Acutipereira, a Cozinha foi idealizada por um grupo de 20 mulheres, que se organizou para produzir alimentos de qualidade e em quantidade suficiente para atender à demanda de escolas municipais.

A partir de parcerias feitas com uma ampla rede de organizações, a comunidade também é referência no desenvolvimento de projetos como a recuperação dos açaizais nativos, a implementação de sistemas agroflorestais e a constituição de um fundo solidário.

Com o desafio de abastecer seis escolas do recém-criado Projeto Estadual de Assentamento (PEAEX) Acutipereira, as mulheres da comunidade perceberam que seria necessário criar infraestrutura para beneficiar a produção, armazenar e o transportar os alimentos. A realização de feiras de ciências também as instigou sobre como reaproveitar as frutas produzidas localmente.

Foi assim que a cozinha foi concebida, com o apoio do Fundo Solidário Açaí, gerido pela própria comunidade, e do projeto “Mulheres Marajoaras”, realizado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), em parceria com organizações locais.

“Desde a realização das Feiras de Ciências na comunidade, nós começamos a sonhar em ter uma cozinha para reaproveitar as frutas que nós temos a partir da produção de alimentos. A ideia era também fazer a merenda para entregar nas escolas vizinhas e para os nossos filhos”, conta Maria Luiza Gomes Lacerda, atual coordenadora da Cozinha Iaçá.

Após a instalação de equipamentos, a compra de utensílios e formações sobre diversos temas, a Cozinha se tornou também uma referência na produção de alimentos saudáveis, criativos e saborosos em todo o município. Além de abastecer as escolas, os produtos passaram a ser vendidos diretamente em feiras e outros espaços da cidade, assim como a partir de encomendas.

Um livro de receitas chegou a ser elaborado a partir da parceria da comunidade com o IEB, apresentando ao público pratos feitos com produtos obtidos em roças, matas, quintais e beiras de rio. Nele, são apresentados os passos para o preparo de bolos, biscoitos, coxinhas, pastéis e pães com frutos como o açaí, o tucumã, o cupuaçu e a manga, assim como ingredientes como a castanha-do-pará, a macaxeira e a farinha de tapioca.

Com a pandemia de COVID-19 e a decorrente suspensão das aulas presenciais no município, o contrato da Prefeitura de Portel foi suspenso. Nesse período, as mulheres da comunidade se reorganizaram para confeccionar cestos e paneiros utilizados pelos comerciantes de açaí.
Com o retorno das aulas presenciais, a expectativa é que os contratos, feitos a partir dos Programas Nacionais de Alimentação Escolar (PNAE) e de Aquisição de Alimentos (PAA), sejam retomados.

Recentemente, a Cozinha também entrou em processo de reforma, a fim de melhorar e aumentar a sua capacidade produtiva. De acordo com Maria Luiza, o sonho das mulheres da comunidade passou a ser o de agregar um refeitório ao espaço.

“O nosso sonho é um dia fazer a nossa cozinha maior com o refeitório em cima, para servir os clientes que vierem degustar das delícias feitas na Cozinha Iaçá”, revela.

Beira Amazonas – Três anos após a criação da Iaçá, um grupo de quase 40 mulheres, moradoras de seis comunidades do interior do estado do Amapá, inaugurou a Cozinha Coletiva do Beira Amazonas.

Habituadas ao extrativismo do açaí e de outros produtos da sociobiodiversidade, a cozinha foi planejada quando as mulheres dessas comunidades, localizadas entre os municípios de Macapá e Itaubal, organizaram-se para discutir a produção, as boas práticas e a comercialização desses produtos. O processo de mobilização havia iniciado em 2019, por meio da parceria entre o IEB e as Associações da Escola Família Macacoari (AEFAM) e de Moradores Agricultores Familiares da Comunidade de Rio Bacaba (Agrobacaba), entre outras organizações.

A construção da Cozinha Coletiva do Beira Amazonas se deu em um local considerado central para as comunidades envolvidas, com acesso que varia de 10 a 40 minutos de rabeta (um tipo de canoa motorizada). O espaço conta com outros equipamentos públicos em seu entorno, tais como uma escola e um centro de atividades.

O espaço possui infraestrutura adequada para o trabalho conjunto, com armários, balcões para a manipulação de alimentos, equipamento de refrigeração, fogão industrial e outros eletrodomésticos e utensílios. Um livro de receitas da comunidade se encontra em processo de elaboração por meio da parceria entre o grupo de mulheres do Beira Amazonas e o IEB.

“Nosso plano para a cozinha é crescer e nos tornarmos uma referência no mercado de serviços e refeições coletivas”, afirma Deurizete Cardoso, uma das coordenadoras do Grupo de Mulheres do Beira Amazonas.

“Quando a Cozinha Coletiva foi construída, mudou muita coisa porque, na verdade, as mulheres se tornaram empoderadas, saindo de seus lares para fazer os seus quitutes, vender a outras comunidades e até fora. Então acho que isso foi uma referência muito boa, trouxe novos horizontes para essas mulheres”, completa.

A analista Waldileia Rendeiro, do IEB, organização que tem apoiado a criação e o desenvolvimento das cozinhas agroextrativistas no Pará e Amapá, ressalta que o processo de organização das mulheres alcança dimensões que estão além do fator econômico.

“Ao idealizar a construção das Cozinhas como espaços coletivos para a produção adequada dos produtos, as mulheres têm discutido e elaborado estratégias de enfrentamento dos diferentes desafios para a sua inserção socioprodutiva, como aqueles relacionados às desigualdades de gênero nas cadeias produtivas”, explica. “Na prática, a organização das mulheres busca ou fortalece a autonomia feminina e outros processos mais abrangentes do desenvolvimento territorial, como a segurança alimentar e modelos de produção mais justos e sustentáveis”.

“As cozinhas acabam por se constituir assim em espaços de compartilhamento de saberes, afetividade, formação, trocas de experiências e têm possibilitado debater diferentes temas como saúde, agroecologia, gênero, violência e políticas públicas”, reforça a analista.

Para conhecer melhor a experiência da Cozinha Iaçá, em Santo Ezequiel Moreno, leia o capítulo 11, de autoria da pesquisadora Waldiléia Rendeiro, no livro Soberania alimentar: biodiversidade, cultura e relações de gênero. Para baixar o livro de receitas elaboradas pelas mulheres da comunidade, clique aqui.

Texto: Brenda Taketa | Imagens: Eraldo Paulino e Thales Miranda/Arquivo IEB

[[arrow_upward|]]